
A Segunda Guerra Mundial não começou em 1939, nem terminou em 1945. Ela foi um amálgama de conflitos interligados, cujas origens, dinâmicas e cronologias. Saiba mais sobre isso!
Geralmente quando a gente pensa na Segunda Guerra Mundial, nos vem a mente um evento único, relativamente linear, iniciado em 1º de setembro de 1939, com a invasão da Polônia, e encerrado em 1945, com a rendição da Alemanha e do Japão. Mas, o historiador Antony Beevor questiona essa visão simplificada, propondo que a guerra deve ser compreendida como um amálgama de conflitos interligados, cujas origens, dinâmicas e cronologias variam conforme a região do mundo analisada.
O fim da Primeira Guerra Mundial, por exemplo, não trouxe uma paz duradoura que alguns esperavam. Pelo contrário, o colapso de impérios multinacionais — como o russo, o austro-húngaro e o otomano — abriu espaço para revoluções, guerras civis e disputas territoriais que mergulharam vastas regiões em instabilidade quase permanente. A “Grande Guerra” ou “Guerra para acabar com todas as guerras” simplesmente não acabou. As medidas tomadas como “precaução” (a Liga das Nações e o Tratado de Versalhes) ou não foram eficazes ou só serviram para agravar crises, intensificar conflitos e gerar novos problemas que teriam conexão direta com a Segunda Guerra Mundial.

Livro A Segunda Guerra Mundial
A Revolução Russa de 1917 e suas consequências
A Revolução Russa de 1917 (ou Revolução de Outubro) é considerada por muitos como um dos eventos mais decisivo do período. A derrubada do regime czarista e a ascensão dos bolcheviques não apenas transformaram a Rússia, mas provocaram um abalo profundo em todo o sistema internacional. Era a primeira vez que o Capitalismo era derrubado por uma revolução, mostrando que as profecias de Karl Marx estavam se cumprindo.
Ao instalar o socialismo, pela primeira vez, um Estado assumia oficialmente um projeto revolucionário que se colocava como alternativa ao capitalismo liberal. Para o historiador Eric Hobsbawm, o impacto da Revolução Russa foi tanto político quanto psicológico, espalhando medo entre as classes burguesas europeias e mundiais e trazendo esperança entre os movimentos revolucionários de esquerda.
Mas, os conflitos não tiveram fim com a derrubada do Capitalismo. No processo de implantação do Socialismo, a Rússia viveu a Guerra Civil (1918 a 1921), onde enfrentou tanto grupos que queriam a volta do tzarismo — ou ao menos a manutenção do Capitalismo —, como também enfrentou partidos de esquerda adversários. Foram milhões de mortos em combate, terminando com a vitória bolchevique, a consolidação do comunismo e criação da União Soviética em 1922. Mas, concluida oficialmente a Guerra Civil, a União Soviética seguiria envolvida em conflitos com países vizinhos, a exemplo do Japão no extremo Oriente e depois contra outros do leste europeu.

A Europa convulcionada
Nos anos imediatamente posteriores a 1918, a Europa foi palco de uma série de levantes e conflitos internos. Outras tentativas revolucionárias de esquerda ocorreram na Alemanha, na Hungria e em outras regiões da Europa Central, enquanto guerras civis e disputas armadas marcaram países como Finlândia, Polônia, Ucrânia e os Estados Bálticos.
Essas guerras internas consolidaram um padrão de brutalidade extrema, no qual execuções sumárias, terror político e perseguições ideológicas tornaram-se práticas comuns. A normalização da violência política nesse período é, para o historiador Antony Beevor, um elemento essencial para compreender a radicalidade da Segunda Guerra Mundial.
A Guerra Civil Espanhola (1936–1939) é um exemplo claro desse cenário de polarização. Mais do que um conflito nacional, ela funcionou como um ensaio geral da guerra que estava por vir. Fascistas, comunistas e democratas liberais enfrentaram-se em um conflito marcado por intervenção estrangeira, propaganda ideológica intensa e violência sistemática contra civis. As potências europeias observaram e participaram indiretamente da guerra espanhola, testando armas, estratégias e discursos que seriam amplamente utilizados a partir de 1939. Os russos, por exemplo, apoiaram os democratas e os comunistas, inclusive com equipamento bélico. Da mesma forma, a Alemanha nazista e da Itália fascista apoiaram as forças de Francisco Franco, que afinal sairiam vitoriosas.

As ideologias redalicalizadas
Paralelamente às guerras civis, o mundo vivia um processo acelerado de radicalização ideológica. Liberalismo, nazi-fascismo e comunismo deixaram de ser apenas correntes políticas e passaram a representar projetos globais de sociedade, mutuamente excludentes. A crise econômica de 1929 intensificou ainda mais essas tensões.
O colapso do capitalismo liberal mostrou que deixar a economia funcionar por si só, sem nenhuma interferência, era uma loucura. A mão invisível não era tão eficiente quanto os liberais desejavam pintar. A Crise de 1929 foi o marco nesse sentido, dando margem para amplos questionamentos e previsões por vezes apocalípticas. A crise do liberalismo serviu, enfim, minar em várias regiões do planeta a confiança nas democracias e fortalecer movimentos autoritários que prometiam ordem, grandeza nacional e soluções rápidas para o desemprego e a instabilidade social.
Nesse ambiente, o nazi-fascismo encontrou terreno fértil para se expandir território e influência. Regimes autoritários na Itália e na Alemanha apresentavam-se como respostas diretas tanto ao medo da revolução comunista quanto à fragilidade das democracias liberais. A política internacional passou a operar em uma lógica de confronto permanente, na qual concessões eram vistas como fraqueza e a guerra como instrumento legítimo de transformação histórica.
É nesse sentido que se disseminam ideias racistas, partindo do ponto de vista de que existiam raças superiores (os arianos, no caso alemão). Essas raças superiores teriam o direito de subjulgar as inferiores, o que legitimou ações coloniais por parte da Itália na África e, internamente na Europa, as ideias de Espaço Vital (Lebensraum) por parte da Alemanha. Isso vai levar inevitavelmente ao enfrentamente e a novos conflitos com as populações das regiões ocupadas. Foi assim com os Sudestos, a Áustria (embora tenha sido anexada sem muita resistência) e, finalmente, a Polônia, só para citar alguns exemplos principais da dominação perpetrada pelos nazistas alemães.

Ainda o Imperialismo
O Imperialismo, como sabemos, apesar de ter sofrido forte abalo não terminou ao final da Primeira Guerra Mundial. Como já dá para notar no caso da Itália e o Japão, a busca por novos domínios coloniais seguiu. Assim como seguiu também a disputa pelos espólios do finado Império Otomano, disputado entre os vendedores da Guerra de 1918.
Nesse sentido, os conflitos coloniais ampliavam a dimensão global da violência. Enquanto a Europa lidava com suas crises internas e depois com os efeitos da Crise de 1929, os impérios coloniais enfrentavam revoltas, repressões e disputas estratégicas fora do continente. No Extremo Oriente, por exemplo, o Japão adotou um projeto imperialista agressivo, culminando na invasão da Manchúria em 1931 e na guerra contra a China a partir de 1937, além das ações de expansão territorial pelas ilhas do Pacífico.
O conflito japonês contra a China não pode ser tratado como periférico, pois já apresentava características de uma guerra total, com violência extrema contra civis e ambições de dominação regional. Além disso, já contava com o envolvimento das grandes potências do momento: a Alemanha fez pacto com o Japão e a China recebeu apoio dos Estados Unidos e da União Soviética aos seus grupos internos. A União Soviética nem sempre apoiou os comunistas chineses nesse processo, que, aliás, em 1949 teria como grande consequência a Revolução Comunista Chinesa.
Na África e no Oriente Médio, tensões coloniais e rivalidades entre potências europeias também contribuíram para um clima de instabilidade constante. Tropas coloniais foram mobilizadas em conflitos que não diziam respeito diretamente às populações locais, enquanto a repressão imperial alimentava ressentimentos que explodiriam no pós-guerra.

Enfim…
Dessa forma, tendo em vista todas esses eventos que eu mostrei até aqui, a Segunda Guerra Mundial emerge como a convergência de múltiplos conflitos: revoluções não resolvidas, guerras civis mal encerradas, disputas ideológicas irreconciliáveis e projetos imperiais em choque. O conflito de 1939–1945 não criou essa violência, o racismo, a destruição, mas os reuniu, intensificou e globalizou.
Compreender a Segunda Guerra como um amálgama de conflitos permite explicar tanto sua brutalidade sem precedentes quanto sua extensão geográfica. Ela foi menos o início de uma crise e mais o momento em que um mundo já em ebulição entrou em colapso definitivo, redefinindo a política, a sociedade e as relações internacionais do século XX. Agora, ela resolteu todos os conflitos e os países encontraram os caminhos para a paz? Daí é tema para outro texto.

Box Memórias da Segunda Guerra Mundial
Glossário
Amálgama – figurado mistura de elementos diferentes ou heterogêneos que formam um todo.



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