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As mulheres na Roma Antiga

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As mulheres na Roma Antiga. As mulheres tinham papel secundário na Roma Antiga, com limites de movimento e restrições sociais, mas havia exceções e destaques. É o que quero mostrar nesse texto, usando como base um livro coletivo da historiadora Pilar Pavón.

Quando pensamos na Roma Antiga, quase sempre recordamos generais, imperadores e senadores. No entanto, Roma também foi construída por mulheres — discretas ou visíveis, elogiadas ou condenadas — que atuaram na política, na religião, na economia e na vida cotidiana. O livro 250 mujeres de la Antigua Roma (sem tradução para o Português), organizado por Pilar Pavón, revela um universo muito mais complexo do que a imagem tradicional costuma mostrar. Entre limites rígidos e oportunidades inesperadas, muitas romanas encontraram formas de agir, decidir e transformar o seu tempo.

A vida sob o poder do paterfamilias — mas com brechas

A sociedade romana era marcadamente patriarcal e atribuía ao pai ou ao marido o controle legal e simbólico sobre o destino feminino. Esses paterfamilias detinham o poder sobre os seus, incluindo as mulheres, sobre os quais podia julgar comportamentos, punir “transgressões”, e ditar o destino, para a vida ou para a morte.

Por exemplo, entre as elites, os casamentos serviam como estratégia política, e o corpo das mulheres tornava-se peça de negociação. É o caso de Julia, filha de Júlio César, oferecida em casamento a Pompeu para fortalecer alianças, mostrando como os sentimentos individuais eram subordinados aos interesses masculinos.

Nessa mesma fase da história romana temos o exemplo também da irmã de Augusto, oferecida por ele em casamento a Marco Antônio – Otávia, a Jovem (também conhecida como Otávia Menor). O casamento dos dois ocorreu em 40 a.C. e teve motivações políticas, selando o Pacto de Bríndisi, um acordo que visava a reconciliação entre Otaviano (futuro imperador Augusto) e Marco Antônio, que eram rivais na disputa pelo poder após o assassinato de Júlio César. 

Apesar dessa limitação imposta pelo patriarcalismo romano, muitas mulheres ampliaram silenciosamente seu espaço de ação. Administraram propriedades, intervieram em conflitos e, em momentos de crise, tomaram decisões de enorme impacto. O famoso elogio funerário da chamada Turia mostra uma esposa que protegeu o marido proscrito, conduziu questões jurídicas, controlou o patrimônio familiar e enfrentou ameaças para garantir a sobrevivência de todos. Sua vida manifesta a coragem de quem age dentro dos estreitos limites impostos às “boas matronas”, sem deixar de demonstrar autonomia e inteligência.

Religião: autoridade feminina em um mundo masculino

Esse era um campo importante, onde as mulheres agiam e tinham influêcia e preponderância. A religião oferecia uma esfera particular de prestígio e poder simbólico.

As virgens vestais, sacerdotisas de Vesta, cuidavam do fogo sagrado que simbolizava a continuidade de Roma e, por isso, ocupavam um lugar singular na sociedade. Fonteya, por exemplo, aparece nas fontes históricas como exemplo de pureza e disciplina; suas preces eram consideradas tão eficazes que recusar seus pedidos era visto como ofensa aos deuses.

Outro episódio notável é o de Emilia, também vestal, que viu o fogo sagrado apagar e, após apelar à deusa, presenciou o reacendimento milagroso. A narrativa mistura devoção, política e construção de memória religiosa, revelando como essas mulheres concentravam respeito e responsabilidades que atravessavam a própria lógica do Estado romano.

Curiosamente, essa posição das mulheres na religião seria ameaçada pelo Cristianismo. Quando esse foi se institucionalizando e adotando formas e rituais romanos, os homens passaram a dominar, o que não mudou muito até os dias de hoje, onde mulheres não são ordenadas para os cargos máximos da igreja Católica.

Livro As Mulheres que Fizeram Roma

Riqueza, doações e memória pública

Em várias regiões do Império, mulheres ricas desempenharam papéis decisivos por meio de doações públicas, financiando templos, estátuas, espetáculos e obras urbanas. Essas iniciativas garantiam prestígio, reconhecimento e presença duradoura na memória coletiva das cidades.

A trajetória de Aponia Montana, ligada ao comércio do azeite na Hispânia, mostra como a fortuna feminina podia sustentar o culto imperial e participar ativamente da vida cívica, mesmo mediada por normas masculinas. Suas dedicatórias em prata revelam autonomia econômica e inserção política no espaço público. Esse chamado evergetismo, dessa forma, funcionava como via legítima e respeitável de projeção feminina na cidade.

Política, disputas e violência

No centro do poder imperial, o protagonismo feminino surgia muitas vezes acompanhado de intrigas, suspeitas e riscos. Agripina, mãe de Nero, é um exemplo disso: ela movimentou alianças, negociou casamentos e influenciou a sucessão do trono. Sua presença, porém, despertou medo e resistência, culminando no seu assassinato por ordem do próprio filho, num cenário em que se misturam ambição, conflito familiar e disputa por autoridade.

Cleópatra, rainha do Egito, transformou-se em símbolo literário e político. Ela venceu a disputa com o irmão, infante, se aliou com Marco Antônio, pretendente do trono de Roma, com quem se casou, e por um tempo conseguiu se impor. Não é à toa que a derrota de Cleópatra após a batalha de Áccio e o suicídio posterior passaram a representar o triunfo de Roma e de um Ocidente masculinizado sobre um Oriente associado à sua figura feminina, tenha mostrado como as percepções de gênero moldavam as leituras do poder e da história.

Diversas narrativas romanas, reais ou reelaboradas pela tradição, revelam também tensões entre honra, lei e controle masculino. O episódio de Virginia é exemplar: declarada escrava por decisão injusta, acabou morta pelo próprio pai para “salvar” sua pureza e evitar a violência de um magistrado. A história denuncia o abuso das elites e reforça a ideia dramática de que, para uma jovem, a honra valeria mais do que a própria vida. A crueldade do enredo revela o peso simbólico atribuído ao corpo feminino e ao controle moral exercido sobre ele.

Nem sombras, nem heroínas perfeitas

Não é fácil classificar as mulheres da Roma Antiga. A maioria delas foram figuras submissas, apagadas pela autoridade masculina, embora algumas tenham desviado dessa definição. O que não quer dizer também que tenham sido protagonistas extraordinárias que desafiaram tudo e todos. Em meio a esses extremos existe uma zona cinzenta onde a maioria delas viveu.

Em muitas histórias, vemos personagens mulheres que cumprem papéis tradicionais, mas que, ao mesmo tempo, negociam, intervêm e tomam decisões capazes de alterar o rumo de suas famílias e, por vezes, da própria política romana. Mesmo que alheias às principais decisões políticas, sem o trabalho constante das mães, esposas e administradoras, a vida cotidiana de Roma simplesmente não teria funcionado.

Ao observar figuras como Turia, Agripina ou Aponia Montana, podemos ver que o poder feminino não surgia de um único lugar. Às vezes vinha da riqueza, às vezes da proximidade com governantes, às vezes da religião ou da reputação moral. Esse poder, porém, nunca era absoluto: precisava ser justificado, negociado e frequentemente era visto com desconfiança. Por isso tantas narrativas oscilam entre exaltar a virtude feminina e denunciar a suposta “periculosidade” da mulher que ultrapassa limites. A mesma sociedade que celebrava a vestal exemplar temia a rainha influente ou a mãe que interferia na sucessão imperial.

Enfim, o que Pilar Pavón e os autores que com ela colaboram procuram mostrar é que, ao estudar as mulheres na Roma Antiga, não encontramos mitos ou modelos perfeitos, mas mas mulheres inseriadas no contexto mais amplo da sociedade romana. Os autores mostram como o poder circulava, como o gênero estruturava o cotidiano, e como algumas mulheres quebravam os padrões, ganhando algum destaque.

Livro A Força das Mulheres Romanas

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