, ,

As atrocidades do Japão na Segunda Guerra Mundial

Avatar de José Antonio Fernandes

Compartilhe esse conteúdo

Você certamente já ouvi falar das barbaridades nazistas, mas o que você sabe sobre as atrocidades do Japão na Segunda Guerra Mundial? (contem cenas sensíveis)

Ao analisar a guerra no Pacífico e, sobretudo, a ocupação japonesa da China, o historiador Antony Beevor (e outros) descreve um quadro de violência extrema que vai muito além do combate militar. O exército imperial japonês combinou brutalidade sistemática, desprezo absoluto pela vida humana, baseada em ideias racistas e de superioridade, e uma ideologia que incentivava a desumanização do inimigo.

O resultado foi uma sequência de crimes que incluíram massacres de civis, estupros em massa, experimentos científicos em prisioneiros e o uso deliberado de armas biológicas.

O Massacre de Nanquim (1937–1938)

O episódio mais emblemático dessa violência foi o Massacre de Nanquim, ocorrido após a tomada da capital chinesa em dezembro de 1937. Ele foi uma explosão de violência, tolerada — e muitas vezes estimulada — pelos oficiais japoneses; os soldados mais novos eram treinados pelos mais experientes na maneira de agir e tratar os inimigos. Da mesma forma, eram “treinados” para lidar com as populações das regiões invadidas e dominadas.

Segundo Antony Beever, “a matança tornou-se um fim em si mesma”, e os soldados passaram a executar prisioneiros e civis de forma rotineira. Havia uma boa dose de sadismo, em meio a uma desumanização incontrolável. Tratar os chineses e chinesas com alguma piedade ou complacência é que era visto como fraqueza e era passível de punição.

No Massacre de Nanquim houve uma enxurrada de assassinatos, estupros coletivos e humilhações públicas, que ocorreram durante semanas. Em práticas recorrentes, as tropas japonesas usaram diversos métodos de assassinato. Execuções em massa por fuzilamento foram comuns. Decapitações com baionetas ou espadas ocorreram tanto individualmente quanto de forma coletiva. Há registros de pessoas enterradas vivas em valas comuns, de vítimas queimadas durante incêndios deliberados em bairros inteiros e de afogamentos em massa após prisioneiros serem lançados no rio. Espancamentos até a morte e mortes resultantes de tortura também fizeram parte da rotina de terror.

Estupros em massa e a política de terror sexual

Há ainda a violência sexual. Só no caso de Nanquim, a violência sexual era tanta que chocou até observadores estrangeiros acostumados à brutalidade da guerra. Mulheres eram estupradas repetidamente, por dezenas de soldados cada uma; eram espancadas e, em muitos casos, mortas logo depois. Havia até os chamados “espaços de conforto”, onda as mulheres (ou “mulheres de conforto”) eram confinadas para recreação dos soldados. Era isso uma forma de “organizar” e “controlar” os soldados japoneses.

Esss estupros cometidos pelo exército japonês não foram atos isolados ou indisciplina momentânea. Ao avançar pela China, o exército japonês faz uso do estupro, dentre outras coisas, como uma arma de terror tão eficaz quanto o assassinato. A violência sexual servia para humilhar comunidades inteiras, destruir laços sociais e impor o domínio absoluto do ocupante.

O canibalismo

Ao analisar o comportamento das tropas japonesas em diferentes frentes, podemos perceber o processo de brutalização progressiva dos soldados. O historiador Antony Beever afirma que, em determinadas unidades, “a vida humana passou a não ter qualquer valor intrínseco”. Nesse contexto, surgiram práticas extremas, incluindo casos documentados de canibalismo contra prisioneiros e civis.

Em determinadas frentes da guerra no Pacífico e na China, ocorreram casos documentados de canibalismo praticado por soldados do exército japonês, inclusive envolvendo oficiais. Ele ocorreu como consequência extrema da fome, causada pelo isolamento de tropas e a insuficiência de suprimentos.

Mas, contribuiu também para isso a brutalização e a desumanização do inimigo. Em alguns relatos investigados no pós-guerra, o canibalismo foi praticado de forma deliberada e ritualizada, e não apenas em situações de desespero, o que demonstra até que ponto a ideologia militar japonesa havia reduzido o inimigo à condição de coisa.

Prisioneiros de guerra e civis passaram a ser tratados como possível alimento. Prisioneiros de guerra, por exemplo, foram executados especificamente para consumo, incluindo episódios nos quais partes do corpo eram retiradas logo após a morte, às vezes por ordem de oficiais. Em outros casos, há relatos de violência sexual seguida de canibalismo praticados contra civis chineses. Citando um exemplo disso, Antony Beever fala de uma jovem chinesa que foi violentada por um soldado e, posteriormente, assassinada, tendo partes de seu corpo consumidas, as “partes mais carnudas”.

Livro O Massacre de Nanquim

A Unidade 731 e os experimentos em seres humanos

Algo muiti parecido com a desumana experiência científica perpetrada pelos nazistas e seus “médicos da morte”, os japoneses produziram a Unidade 731. Ela é pode ser descrita como um dos capítulos mais perturbadores da Segunda Guerra Mundial.

Instalada na Manchúria ocupada, essa unidade funcionou como um grande complexo secreto dedicado ao desenvolvimento de armas biológicas e ao estudo dos limites do corpo humano em situações extremas. A Unidade 731 era um espaço onde a medicina foi completamente divorciada de qualquer ética.

Prisioneiros chineses — civis, soldados e até crianças — foram sistematicamente utilizados como cobaias humanas. Mas não foram apenas os chineses as vítimas, também foram usados prisioneiros Aliados também. Eles eram submetidos a experimentos de vivissecção sem anestesia — ou seja, uma operação feita com os prisioneiros vivos. Eles também eram infectados de forma deliberada com doenças como peste bubônica, cólera e antraz, além de passar por testes de resistência física extrema, que incluíam congelamento, desidratação e mutilações.

Essas práticas não tinham como finalidade a cura ou o avanço da medicina no sentido humanitário, mas sim a produção de conhecimento útil para a guerra, especialmente no desenvolvimento de armas biológicas capazes de dizimar populações inteiras.

Dentro da lógica da Unidade 731, as vítimas eram tratadas como objetos totalmente descartáveis., O historiador Antony Beever resume o funcionamento do local ao afirmar que “não havia pacientes, apenas material experimental”. Essa frase sintetiza a mentalidade dominante de que seres humanos eram reduzidos a instrumentos de pesquisa, privados de identidade, dignidade e qualquer direito à vida.

Acho que fica claro o paralelo com as experiências nazistas, embora o caso japonês não seja tão conhecido ou divulgado. Aliás, isso acontece porque depois da rendição japonesa, de forma deplorável, Douglas McArtur, General dos Estados Unidos, fez um acordo, onde as investigações sobre a Unidade 731 e seus responsáveis não iriam adiante, em troca dos estudos e dados obtivos. Não houve grandes julgamentos, nem responsabilização, nem famosas condenações como as que ocorreram em Nuremberg.

Guerra biológica

Por fim, os japoneses fizeram amplos planos para o uso deliberado de guerra biológica seja na China, seja ainda contra os Aliados, tanto contra os Estados Unidos quanto contra os países e ilhas do Pacífico. Por exemplo, pulgas infectadas com peste bubônica foram espalhadas sobre áreas civis, poços foram contaminados e epidemias foram provocadas intencionalmente. Tentativas de envenenamento dos exércitos estadunidenses foram feitas, embora não se saiba o efeito.

Essas operações causaram surtos epidêmicos que continuaram matando muito depois da retirada das tropas, ampliando o impacto humano da ocupação japonesa de forma silenciosa e prolongada. Planos havia aos montes e as ações de guerra biológicas só não foram piores porque os japoneses foram obrigados a se render em setembro de 1945.

Livro Japan’s Infamous Unit 731 (Infame Unidade 731, em inglês)

Tagged in :

Avatar de José Antonio Fernandes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *