
Elas aterrorizaram os nazistas, além de enfrentar os próprios preconceitos da época. Elas mostraram seu valor e foram chamadas de Bruxas da Noite e se tornaram lendárias. Elas são o tema desse texto baseado no livro de Ritanna Armeni.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a União Soviética mobilizou todos os seus recursos humanos para enfrentar a invasão nazista. Nesse contexto extremo, um grupo de jovens mulheres se destacou de forma singular: as aviadoras do 588º Regimento de Bombardeio Noturno, que ficaram conhecidas pelos alemães como Nachthexen — as temidas “Bruxas da Noite”.
Sua história reúne coragem, resistência e uma profunda ruptura com os papéis tradicionais atribuídos às mulheres em tempos de guerra.

Quem eram as Bruxas da Noite
As Bruxas da Noite eram, em sua maioria, jovens soviéticas — estudantes, operárias e camponesas — recrutadas a partir de 1941 por iniciativa da aviadora Marina Raskova. Unidas no 588º Regimento, elas atuaram como pilotas, navegadoras, mecânicas e armeiras, compondo uma unidade exclusivamente feminina, algo absolutamente excepcional para a época, que chocou os alemães e intrigou até mesmo os demais Aliados.
A historiadora Ritanna Armeni, em seu livro As Bruxas da Noite, destaca que essas mulheres carregavam não apenas bombas, mas também o peso do preconceito e da desconfiança inicial dentro do próprio Exército Vermelho. Segundo a autora, “para as recrutas do regimento 588, o início não foi exaltante e heróico. […] Muitas vezes foi triste, duro, doloroso e até humilhante”. O que envolveu sem dúvida assédio e manifestações de machismo com mulheres agindo em um mar de homens raivosos e longe de casa.
Apesar disso, elas persistiram, sustentadas por um profundo sentimento de dever patriótico, alimentado pela defesa da pátria soviética em um momento de ameaça existencial, e também pelo desejo consciente de romper estigmas de gênero, demonstrando, em combate real, que eram plenamente capazes de atuar com a mesma eficiência, disciplina e bravura que os homens — e, em muitas situações, superando-os em resistência física, precisão operacional e capacidade de suportar as condições extremas impostas pela guerra.

Como agiam: tática, medo e eficiência
As Bruxas da Noite operavam aviões Polikarpov Po-2, modelos leves, lentos e tecnologicamente ultrapassados. Contudo, foi justamente essa fragilidade que se transformou em vantagem. Voando à noite, em baixíssima altitude, as aviadoras desligavam o motor pouco antes do ataque, fazendo com que o avião deslizasse silenciosamente até o alvo.
Esse ruído sutil, descrito pelos alemães como semelhante a um sussurro ou assobio, alimentou o mito que lhes rendeu o apelido de “bruxas”. O terror psicológico era parte essencial da estratégia: os ataques eram constantes, repetitivos e imprevisíveis.
Em algumas noites, o ritmo era exaustivo. Ritanna Armeni registra que “nas longas noites do outono-inverno de 1944, cada avião do regimento consegue fazer até 16 voos”, o que evidencia o grau extremo de desgaste físico e mental a que estavam submetidas. Além disso, voavam frequentemente sem paraquedas, pois o peso extra poderia comprometer a carga de bombas.
A morte era uma presença constante, e, como observa a autora, “a morte vem não apenas do inimigo”. Havia uma multiplicidade de ameaças, sendo que o risco de morrer não se limitava ao combate direto contra as forças alemãs. Ela remete, em primeiro lugar, às condições materiais extremamente precárias em que essas aviadoras atuavam, pilotando aeronaves frágeis, muitas vezes sem paraquedas, expostas ao frio intenso, à exaustão física e a falhas mecânicas que podiam ser fatais mesmo na ausência de ataques inimigos.
Ao mesmo tempo, havia a negligência e o preconceito dentro do próprio Exército Vermelho, que frequentemente negava a essas mulheres equipamentos adequados, reconhecimento e proteção equivalentes às unidades masculinas, expondo-as a riscos adicionais. Por fim, há um sentido simbólico mais profundo, relacionado ao apagamento de sua experiência no pós-guerra, quando o silêncio imposto e a desvalorização de seu patriotismo representaram uma forma de “morte” da memória histórica dessas mulheres, mostrando que a ameaça à sua existência vinha tanto do campo de batalha quanto das estruturas sociais e institucionais que as cercavam.

A importância das Bruxas da Noite na guerra
O impacto militar do 588º Regimento foi significativo e contínuo ao longo de toda a guerra. Ao longo do conflito, as Bruxas da Noite realizaram cerca de 23 mil missões, número impressionante mesmo quando comparado a unidades masculinas de bombardeio.
Essas missões consistiam, em grande parte, em ataques noturnos repetidos contra posições alemãs, depósitos de munição, comboios de abastecimento, pontes, aeródromos improvisados e acampamentos inimigos, com o objetivo de desorganizar a retaguarda e impedir o descanso das tropas. Uma das veteranas relata com precisão a intensidade desse esforço: “Fizemos um máximo de 325 voos em uma noite […] Vinte e três mil em toda a guerra”. Em muitas ocasiões, uma mesma tripulação realizava dezenas de decolagens e pousos na mesma madrugada, enfrentando fogo antiaéreo constante, escuridão total e condições climáticas adversas.
Essas operações contribuíram diretamente para o desgaste físico e psicológico das tropas alemãs, sobretudo em frentes decisivas como o Cáucaso, a Crimeia, a Bielorrússia e a Prússia Oriental. Os ataques, embora realizados com pequenas cargas explosivas, eram incessantes e precisos, obrigando o inimigo a manter alertas contínuos, dispersar forças e reforçar a defesa antiaérea em áreas secundárias. Durante a contraofensiva soviética, o regimento foi constantemente deslocado para acompanhar o avanço do Exército Vermelho, apoiando ofensivas terrestres, dificultando a retirada alemã e atingindo alvos estratégicos durante a noite, quando outras unidades aéreas tinham atuação limitada. Mas sua importância vai além do aspecto estritamente militar.
As Bruxas da Noite simbolizaram uma transformação profunda no papel das mulheres em contextos de guerra, ao assumirem funções tradicionalmente reservadas aos homens e demonstrarem elevada capacidade operacional sob condições extremas. Elas provaram, na prática, que “uma mulher é capaz de tudo”, lema transmitido ao regimento por Marina Raskova e incorporado à identidade coletiva dessas combatentes, não apenas como discurso simbólico, mas como uma realidade construída a partir da experiência cotidiana de combate, disciplina, sacrifício e resistência.

Entre o heroísmo e o esquecimento
Apesar do reconhecimento durante o conflito, o pós-guerra trouxe um retorno forçado à ordem tradicional. As autoridades soviéticas incentivaram as combatentes a silenciar suas experiências e a reassumir papéis domésticos. Armeni observa que lhes foi sugerido que “não falem dos serviços prestados; deixem que sejam os outros a fazê-lo por vocês”.
Assim, a história das Bruxas da Noite permaneceu por décadas à margem da memória oficial, ofuscada por narrativas masculinas da guerra. Somente mais tarde, por meio de pesquisas históricas e obras como a de Ritanna Armeni, Svetlana Aleksiévitch, Joanna Bourke, Karen Hagemann e outros pesquisadores, essas mulheres recuperaram o lugar que lhes cabe na história.

Livro As Bruxas da Noite


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