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Livro A Segunda Guerra Mundial, de Antony Beevor | Resenha

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Essa resenha fala sobre o monumental livro A Segunda Guerra Mundial, de Antony Beevor, em que sobre pontos interessantes a serem observados.

Quem acompanha o site sabe que ele tem sido uma das minhas referências para os textos sobre Segunda Guerra. O que não quer dizer, obviamente, que eu concorde com tudo. Aliás, sobre isso que quero falar nessa resenha também, os pontos que vejo como positivo e as visões que discordo do autor.

De forma geral, pode-se dizer que em A Segunda Guerra Mundial, Antony Beevor propõe uma interpretação ampla, humana e profundamente crítica do maior conflito do século XX. Ele se dedica de forma exaustiva à cronologia de batalhas, que por vezes analisa em minúcias; assim como se dedica também às decisões diplomáticas, especialmente as relações entre os grandes líderes da Guerra (Hitler, Mussolini, Churchill, Roosevelt, Stálin, De Gaule). Mas, o autor vai mais além disso e constrói uma narrativa que integra estratégia militar, política internacional e, sobretudo, a experiência humana da guerra.

O resultado é um livro que mostra a Segunda Guerra Mundial não apenas como um embate entre Estados, mas como uma tragédia global marcada por violência extrema, sofrimento civil e colapsos morais. Nesse sentido que ele dê ampla atenção às atrocidades, a exemplo do holocausto judeu e de minorias, o sofrimento dos civis, assim como também as atrocidades cometidas pelos japoneses.

Um dos pontos centrais do livro é a recusa de Beevor em romantizar a guerra. Para ele, a Segunda Guerra Mundial não pode ser compreendida apenas como uma “guerra justa” contra o nazismo, mas como um conflito em que todos os lados cometeram atrocidades, ainda que em escalas e contextos distintos. Essa abordagem aparece com força na análise da Frente Oriental, onde o autor descreve a guerra entre Alemanha e União Soviética como um confronto de aniquilação total, no qual civis foram deliberadamente transformados em alvos. Beevor enfatiza que ali a ideologia teve um papel decisivo: o racismo nazista e o autoritarismo stalinista criaram um ambiente em que a violência sem limites se tornou aceitável.

Outro aspecto fundamental da obra é a atenção constante aos civis. Beevor destaca que a Segunda Guerra Mundial marcou uma ruptura histórica ao transformar populações inteiras em instrumentos e vítimas da guerra. Bombardeios estratégicos, fome induzida, deportações, genocídios e massacres são tratados não como efeitos colaterais, mas como elementos estruturais do conflito. Ao abordar o Holocausto, por exemplo, que aliás já falamos aqui no site, o autor o insere dentro de um processo mais amplo de radicalização da violência, mostrando como o extermínio dos judeus europeus foi planejado, executado e, muitas vezes, facilitado pela indiferença ou colaboração de autoridades locais. E como ele se dividiu também em duas situações diferentes mas complementares, o Shoá da Bala e o Shoá do Gás.

No teatro asiático, Beevor chama atenção para a brutalidade do imperialismo japonês, destacando massacres como o de Nanquim, o sistema das “mulheres de conforto” (prostituição forçada nas áreas ocupadas) e os crimes científicos da Unidade 731. Para o autor, o comportamento do exército japonês só pode ser entendido a partir da combinação entre ultranacionalismo, desumanização racial e uma cultura militar que desprezava a rendição e a vida do inimigo. Assim como na Europa Oriental, a guerra na Ásia assumiu contornos de extermínio, nos quais qualquer limite ético foi abandonado.

Antony Beevor também dedica espaço significativo às lideranças políticas e militares, mas evita retratos simplistas. Hitler, Stalin, Churchill e Roosevelt aparecem como figuras complexas, capazes de decisões estratégicas decisivas, mas também responsáveis por escolhas que custaram milhões de vidas. O autor não poupa críticas a Stalin, sobretudo pelo uso do terror interno e pelo desprezo com que tratava seus próprios soldados, nem deixa de apontar os dilemas morais enfrentados pelos Aliados, como os bombardeios sobre cidades alemãs e japonesas.

O livro A Segunda Guerra Mundial é muito bem alimentado por fontes diretas, com uso extensivo de diários, cartas, memórias e testemunhos, que dão voz a soldados comuns, civis, mulheres e prisioneiros. Essa opção reforça uma das teses centrais do livro: a de que a história da Segunda Guerra Mundial não pode ser contada apenas a partir dos gabinetes do poder, mas precisa considerar o impacto cotidiano da violência sobre indivíduos conhecidos ou anônimos. Para Beevor, a guerra é vivida, antes de tudo, no corpo e na mente das pessoas comuns, sejam soldados ou sejam civis.

Em termos interpretativos, Beevor apresenta a Segunda Guerra Mundial como um conflito marcado pela radicalização progressiva da violência, em que ideologia, medo e desejo de vingança se alimentaram mutuamente. Ele argumenta que a guerra destruiu fronteiras morais e normalizou práticas que, em outro contexto, seriam impensáveis. Ao mesmo tempo, o autor rejeita explicações deterministas: para ele, as escolhas humanas — individuais e coletivas — continuam sendo centrais para entender tanto os crimes quanto os atos de resistência e solidariedade que também marcaram o período.

Nesse contexto, ele não fica “neutro”. Faz uma crítica bastante explícita do comunismo, ao menos aquele que conheceu através da União Soviética. O que inclui sua análise ácida dos métodos soviéticos, das ações da NKVD (KGB), os expurgos de Stálin e a forma como foram tratados civis e soldados ao longo da Guerra. Ele procura lembrar constantemente, nas palavras dele, que “o sistema stalinista demonstrou um desprezo pela vida humana que rivalizava, em escala e brutalidade, com o do regime nazista.”. Mas, de forma claramente tendenciosa, se Beevor faz críticas muito válidas sobre o regime soviético, sua visão do comunismo não deixa espaço algum para avanços sociais ou qualquer consideração positiva.

Mas, à parte isso, em síntese, A Segunda Guerra Mundial é uma obra de grande fôlego, que combina rigor historiográfico com narrativa envolvente. A principal contribuição de Antony Beevor está em mostrar que o conflito não pode ser reduzido a uma sucessão de vitórias e derrotas militares. Trata-se, antes, de uma história de sofrimento humano em escala inédita, cujas consequências morais, políticas e sociais ainda ecoam no presente. Por isso eu recomendo fortemente a leitura!

Livro A Segunda Guerra Mundial, de Antony Beevor

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