
A Itália na Segunda Guerra Mundial. Quem vê os discursos de Mussolini antes da Segunda Guerra, imagina uma Itália forte, pronta para fazer história. Mas a realidade não foi bem assim…
A trajetória da Itália fascista começa muito antes de 1939 e da Segunda Guerra Mundial. Benito Mussolini assumiu em 1922 e desde sempre alimentou um projeto de poder que combinava propaganda, militarismo e o sonho de recriar uma “nova Roma”. Ele e os fascistas pareciam tão grandes e predestinados que chegaram a servir de modelo e inspiração para Adolf Hitler na Alemanha.
Em 1935, a invasão da Etiópia, seguida pela proclamação do “Império” italiano em 1936, parecia provar — ao menos aos olhos dos fascistas — que a Itália podia conquistar e dominar, se “tornar grande”. O Duce (como Mussolini era tratado) gostava de frases de efeito, que exaltavam essa ambição: “melhor viver um dia como um leão do que cem anos como uma ovelha”, dizia ele, incentivando sacrifício e obediência.

No mesmo ano de 1935, Mussolini e os fascistas italianos aproximaram-se definitivamente de Hitler e dos nazistas, dando forma ao chamado “Eixo Roma–Berlim”, que seria reforçado pelo Pacto de Aço em 1939. Enquanto a guerra ainda não se mostrava uma realidade, sobravam bravatas italianas e tentativas de mostrar imponência, força, determinação – inclusive para por em prática políticas de superioridade racial e de dominação.

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Mas, as aparências enganavam bem. Quando a guerra finalmente começou em setembro de 1939, Mussolini hesitou. Ele sabia que a Itália não estava realmente preparada para um confronto de grandes proporções. Mas, à medida que as vitórias alemãs se acumulavam, Mussolini temeu ficar fora do grupo vencedor e foi forçado a declarar guerra aos Aliados. Em 10 de junho de 1940, quando a derrota da França já se mostrava definida, Mussolini anunciou ao país a entrada na guerra, proclamando a inevitabilidade do conflito e exaltando a guerra como algo quase natural. Como ele fazia questão de afirmar, “a guerra é para o homem o que a maternidade é para a mulher”, tentando transformar violência em destino glorioso.
No início, alguns movimentos da Itália pareciam animadores: presença italiana no Mediterrâneo, ambições sobre o norte da África e nos Bálcãs, apoio ao exército nazista em pontos importantes. Mas logo ficariam visíveis as dificuldades e mesmo as incapacidades.
Ainda em 1940, em 28 de outubro, Mussolini decidiu invadir a Grécia sem avisar Hitler, imaginando uma vitória rápida para afirmar prestígio. O resultado foi um desastre: os gregos resistiram e empurraram os italianos de volta, obrigando a Alemanha a intervir em 1941. A operação revelou falhas profundas, com planejamento precário, armamento insuficiente e logística frágil.
No norte da África, após avanços iniciais, as forças italianas sofreram duras derrotas e só se mantiveram porque os alemães enviaram o Afrika Korps de Rommel, a “raposa do deserto”. Mas, mesmo agindo em conjunto com os alemães, em 1942, a virada decisiva ocorreu para os Aliados: em outubro-novembro, a derrota em El Alamein mostrou os limites irreversíveis do Eixo naquela frente.

Enquanto o exército italiano se desgastava, o país sofria internamente. A economia não suportava uma guerra longa: faltava combustível, matérias-primas, transporte. Faltava de tudo. Mas, pelo menos nos primeiros anos, os italianos nem tinham sofrido com ataques em seu território. Mas isso logo mudou e foi daí em diante que a coisa piorou mais ainda.
As cidades italianas começaram a sentir os bombardeios dos Aliados e a fome veio forte. A propaganda fascista, com bravatas como “três vivas pela guerra, três vivas pela Itália”, já não escondia a realidade e nem convencia mais. Muita gente que apoiava os fascistas mudou de ideia e os opositores foram ganhando cada dia mais força.

Em julho de 1943, os Aliados desembarcaram na Sicília. O impacto foi imediato: no dia 25 do mesmo mês, o próprio Grande Conselho Fascista derrubou Mussolini, e o rei ordenou sua prisão. Em 8 de setembro do mesmo ano, o governo italiano anunciou o armistício com os Aliados. Parecia que a Itália ia sair da guerra e quem sabe minimizar os seus efeitos.
Mas, Hitler ficou possesso com o armistício e a Alemanha reagiu rapidamente: ainda quando os Aliados se preparavam para entrar na Itália e rumar para pontos estratégicos contra os alemães, esses ocuparam o norte e o centro da península itálica. Os alemães libertaram Mussolini e o colocaram à frente de uma República Social Italiana — uma anomalia criada, um regime fantoche, que não teria autonomia, sendo dependente totalmente dos nazistas.
A Itália mergulhou, então, em um cenário de guerra civil e ocupação. Italianos lutavam em lados opostos, enquanto os Aliados avançavam lentamente pela península. Entre janeiro e maio de 1944, a série de batalhas em Monte Cassino devastou a região; em 4 de junho de 1944, Roma foi libertada. É também nesse contexto que o Brasil enviou 21 mil soldados para o norte da Itália, como apoio importante aos Aliados. A essa altura, o regime de Mussolini sobrevivia apenas formalmente, sustentado por tropas alemãs e marcado por perseguições e represálias.
As promessas grandiosas do Duce — por exemplo, a de que a guerra revelaria o “vigor de um povo” — mostravam-se vazias diante da destruição material e humana.

No fim de abril de 1945, com o Eixo desmoronando e os Aliados avançando no norte da Itália, Mussolini tentou escapar rumo à Suíça, misturado a uma coluna alemã. Foi capturado por partisanos (membros da resistência) em 27 de abril, na região do Lago de Como, e executado em 28 de abril de 1945, junto com companheiros próximos. Seus corpos foram levados para Milão e expostos publicamente — um símbolo duro do colapso do fascismo e do repúdio popular às bravatas que haviam levado o país ao desastre.
Enfim, o que a história da Itália na Segunda Guerra Mundial nos revela é o choque entre discurso e realidade: vitórias aparentes sustentadas por propaganda, fragilidades profundas — econômicas, logísticas e estratégicas —, dependência constante da Alemanha e, por fim, derrota, ocupação e o fim violento do próprio líder que havia prometido grandeza ao país.

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