
Aparte suas imensas contribuições para o entendimento da formação do Brasil, temos a visão de Caio Prado Jr. sobre os povos indígenas na formação do Brasil. Sobre isso que quero falar com vocês nesse texto.
Caio Prado Júnior sem dúvida nenhuma nos deu uma grande contribuição na compreensão da “evolução econômica” do Brasil, desde os primeiros momentos da ocupação até os anos em que viveu. Estudioso marxista da realidade brasileira, à qual faz uma análise crítica contundente, traz reflexões riquíssimas sobre aspectos que impediram o país de chegar ao desenvolvimento comparável aos países europeus do século XX.
Para Caio Prado, o Brasil nasce dentro de um sistema colonial cuja lógica não é construir uma sociedade para si mesma, mas organizar uma engrenagem produtiva voltada para o exterior. Ele sintetiza isso ao afirmar que a colonização tropical foi “uma vasta empresa comercial” destinada a explorar os recursos naturais e humanos do território em benefício da Europa – no caso do Brasil, em benefício, a princípio, de Portugal.
Nesse modelo, os indígenas não são vistos como sujeitos históricos autônomos, mas como parte de um estoque de mão de obra a ser explorado. Estoque que, segundo ele, mostra desde o início suas limitações e empecilhos, o que levará a sua substituição pela mão de obra africana escravizada – ao menos nas regiões em que os colonos podiam comprá-los, exemplos do Nordeste e, depois, de Minas Gerais.

Os indígenas e o trabalho
Vivendo em um país onde havia baixa população, ou escassez demográfica, onde o trabalho manual era preterido, os portugueses que viriam para o Brasil não pretendiam trabalhar eles mesmos, mas sim agirem como “administradores”. Caio Prado afirma que ao vir para cá, o colono europeu buscou “recrutar a mão-de-obra de que precisava: indígenas ou negros importados” – claro que haveriam os brancos pobres livres, mas para Caio Prado seu número era irrelevante.
Mas, nessa por mão de obra, o autor não vê os indígenas como os “trabalhadores ideais”, daí aparecendo ao longo dos seus textos adjetivos pejorativos, que revelam sua visão de mundo e a forma como entendia coisas como “progresso”, “civilização” e “cultura”.
Nesse sentido, os povos indígenas não vão aparecer no mesmo plano que os africanos escravizados, pelo menos no que diz respeito à “aptidão para o trabalho” e à resistência física. Aqui que aparece o que talvez seja o aspecto mais controverso da visão de Caio Prado: a forma como ele caracteriza o indígena enquanto trabalhador.

Ao analisar o fracasso da escravidão indígena em certas regiões, especialmente na agricultura e na mineração, ele formula juízos que soam para nós como muito duros. Por exemplo, segundo ele, “além da resistência que ofereceu ao trabalho, o índio se mostrou mau trabalhador, de pouca resistência física e eficiência mínima”.
Aqui aparecem três qualificações centrais: “mau trabalhador”, “pouca resistência física” e “eficiência mínima”. Esses adjetivos revelam uma visão fortemente marcada por critérios produtivistas, nos quais o valor do indígena é medido pela sua utilidade econômica dentro do sistema colonial.
Além disso, a ideia de “progresso” de Caio Prado vai nesse sentido, já que uma sociedade bem organizada e avançada economicamente envolve trabalho, tecnologia, organização administrativa e uma visão positiva do trabalho dentro do contexto do Capitalismo (ainda que esse sistema econômico devesse em algum momento ser superado por uma “revolução”, na visão do autor).
É devido a isso que, segundo Caio Prado Jr., os colonos portugueses passaram progressivamente a preferir o trabalho africano escravizado: o indígena resistia, fugia, adoecia e não se adaptava ao tipo de trabalho imposto pelos engenhos ou pela mineração. Ao contrário dos indígenas, os negros escravizados, em geral, não conheciam o terreno e tinham uma série de barreiras que os impediam de fugir, além de serem “mais fortes fisicamente” e se adaptarem a trabalhos que exigiam rotina.

Livro História Econômica do Brasil
Os indígenas brasileiros e a “civilização”
Um outro aspecto que chama a atenção na visão de Caio Prado é em relação ao “atraso” cultural dos indígenas. Sua interpretação está fortemente marcada por uma concepção evolucionista de civilização. Assim, em alguns pontos ele fala em indígenas que “ainda viviam na idade da pedra”, que pouco ou nada podiam contribuir para o progresso do país em formação.
Caio Prado entende que a organização social indígena brasileira (diferente da mexicana e peruana) estava baseada em atividades de subsistência, coleta, pesca e caça, e não em formas de produção intensiva ou mesmo organizadas. Por isso, quando os colonos tentaram inseri-los na lógica da colônia, os resultados foram frustrantes. Em certos contextos, segundo ele, o trabalho indígena simplesmente não servia às necessidades da economia colonial.

Inserido na visão de seu tempo, quando Caio Prado diz que o indígena tinha “eficiência mínima”, ele está aplicando uma régua moderna e europeia de valor econômico a sociedades que funcionavam segundo outras lógicas históricas e culturais.
Por exemplo, sobre o que diz respeito ao valor que se dá a determinadas coisas e o fato de os portugueses não encontrarem ouro no Brasil, ao contrário do México e do Peru (onde haviam astecas, mais e incas), ele justifica pelo fato de os indígenas do Brasil serem “de um nível cultural muito baixo, não tinham se interessado por ele”.
Mas, enfim, a ideia desse texto não é invalidar as contribuições de Caio Prado Jr. para o entendimento da história e sociedade brasileira, mas apenas apontar para limites que têm a ver com as visões muito presentes em sua época. Aliás, limitações e visões influenciadas pelo contexto em que se vive é algo que faz parte dos estudos históricos e de humanas em geral e que incluem tantos outros grandes intérpretes do Brasil, tais como Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro, só para ficarmos em dois deles.
Livros de Caio Prado Jr. (clique no título para ver mais a respeito)

Livro Formação do Brasil contemporâneo


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