
por Jonas Gabriel da Silva Ribas
Os pais querem mais autoridade sobre os professores do que sobre os seus filhos.
Começo dizendo que o título é apelativo, eu confesso, mas o debate aqui é pedagógico e até certo ponto epistemológico.
Existe uma crescente vigilância acerca dos conteúdos que devem ou não ser abordados pelos professores. Tal vigilância é muito mais moral do que epistêmica, onde as funções sociais se atravessam.
Nos últimos dez ou mais anos existe uma onda de movimentos e pressões sociais sobre o que é ensinado pelos professores em sala de aula. O movimento Escola Sem Partido mobilizou diversas famílias e conseguiu aprovar leis inconstitucionais sobre conteúdos que deveriam ser censurados em sala de aula (tais como a irreal “ideologia de gênero”). Diversas câmaras de deputados e de vereadores insistem na tosca ideia de que política não deve ser assunto escolar. Mas isso tem um ponto de partida sempre de um grupo e é impossível ser “neutro”.
Muitas dessas pessoas e grupos dizem que a política não deve ser debatida. A meu ver, isso ocorre pela falta de conhecimento dos parlamentares, que confundem o partidarismo com ciência política.
Deputados promovem agitações e leis que buscam, diante da negativa constitucional de censurar, fazer a ponte com os pais para censurar por opção o acesso a conteúdos importantes, considerados por eles como “indesejados” ou “inapropriados”. O ponto central aí é a questão moral – uma certa moral, diga-se.
Isso se extende para o tema religião, que não deve ser debatido nas escolas para não afetar a convicção de fé das famílias. Mas fazem isso partindo de uma religião específica, dominante, que no caso brasileiro é o cristianismo. O que exclui as demais religiões, impedindo avanços no sentido da tolerância.
A doutrina religiosa faz parte das escolhas da vida privada, mas a diversidade religiosa é central para o debate público. Parece-me que não falar de religião e política nas escolas serve muito mais ao interesse do domínio teológico cristão sobre a sociedade e da reprodução daqueles que não sabem o que é ciência política, mas são eleitos pela ingenuidade de seus eleitores.
Por fim, temas como igualdade de gênero não devem ser debatidos, porque afetam a convicção familiar sobre a hierarquia natural entre homens e mulheres. O que acaba impedindo o debate de pontos delicados e problemas atuais, como violência contra a mulher.
Sobre essa questão de gênero, creio que, falando metaforicamente, o medo dos parlamentares seja mais a proliferação dos gêneros alimentícios que tomam vida em novelas de frutas, do que dos crescentes feminicídios que são cotidianamente esquecidos.


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