Ele entende de África como poucos aqui no Brasil. É um dos grandes estudiosos da história e da cultura desse continente e de suas múltiplas relações com o nosso país.
Alberto Vasconcellos da Costa e Silva nasceu em São Paulo, em 1931, um dia antes das rememorações da libertação dos escravos em nosso país. Por coincidência ou não, se tornou um dos maiores, senão o maior africanista brasileiro.
Ele é filho de poeta e poeta se tornou também. Mas não se tornou apenas poeta: ele se tornou ainda historiador, além de cronista, ensaísta, memorialista e diplomata. Um personagem que desde a adolescência se apaixonou pela África e que fez dela uma de suas obsessões ao longo da vida.
Ele é um diplomata que se tornou historiador. Diplomado pelo Instituto Rio Branco, em 1957, ele serviu como secretário de embaixada, consul e embaixador em diversos países, tais como Portugal, Venezuela, Estados Unidos, Espanha, Itália, Nigéria e Benim. Esses dois últimos, atualmente países africanos, onde ele foi embaixador cumulativamente entre 1979 e 1983, correspondem a algumas das principais regiões de onde teriam vindo os escravizados para o Brasil no período colonial e imperial, e que pesaram na sua trajetória e escritos. Como ele mesmo disse “ter vivido alguns anos na África me fez confrontar o que eu via com o que eu lia e sabia”.
Em seu longo e rico trajeto pessoal, Alberto da Costa e Silva se interessou por muitos temas envolvendo a cultura, do Brasil e da África, que foram usados em seus estudos históricos, poemas, ensaios, memórias e antologias. Nesse mesmo caminho que trilhou, ele se interessou profundamente pelo estudo das culturas e histórias dos povos africanos, entendidos por ele em sua multiplicidade e não apenas como “uma África só”, coisa que não existe. Em termos de história, fez isso observando um longo período que vai da antiguidade até tempos mais recentes – como é o caso de seus livros Imagens da África: da Antiguidade ao Século XIX e As Relações Entre o Brasil e a África Negra, de 1822 a 1° Guerra Mundial.
Ainda agindo como historiador (mais não só), interessou-se desde muito tempo também pelas trocas culturais entre os que vinham do outro lado do “rio chamado Atlântico”, “largo e comprido”, e os que partiam das costas do Brasil rumo àquela região. Com muita razão ele sustenta que a cultura africana é um dos alicerces da cultura brasileira e o modo de vida do outro lado do Atlântico também foi influenciado pelo Brasil. Usos, costumes, linguagens, formas de trabalhos, plantas, comidas, trocas das mais diversas, voluntárias ou inevitáveis, que fizeram vir, além dos elementos culturais, a metalurgia, os coqueiros, os manguezais e os azeites de dendês e levaram daqui comidas, a mandioca, a cachaça, o fumo e por aí vai… Eis o rico material para livros tais como A Enxada e a Lança, A Manilha e o Libambo e Um Rio Chamado Atlântico.
Quando ele se dedicou a fazer uma biografia histórica, o tema de fundo era a escravidão, tendo como personagem principal Francisco Félix de Sousa, o famoso mercador de escravos do século XIX. Esse baiano que, tendo chegado à África sem um tostão, em pouco tempo tornou-se um poderoso chefe africano e um dos maiores traficantes de escravos. Nesse mesmo espaço das biografias, houve espaço para o livro Castro Alves, que, dessa vez, “não indo à África” mas se atendo ao “poeta da abolição”, é um misto de perfil ensaístico e crítica literária, assim como um esforço para definir o lugar do mesmo poeta na literatura e na história nacional.
Alberto da Costa e Silva já foi amplamente condecorado e premiado. Recebeu, por exemplo, o Prêmio Luísa Cláudio de Souza, do Pen Club do Brasil, em 1978, pelo livro de poemas As linhas da mão; o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1997, pelo livro Ao lado de Vera; e em 2014, recebeu o Prêmio Camões pelo conjunto de sua obra. Em 2004 foi escolhido pela União Brasileira de Escritores (UBE) como o “Intelectual do Ano”. Recebeu também diversas condecorações do governo de Portugal, onde foi embaixador de 1989 a 1992.
Alberto detêm a cadeira 9 da Academia Brasileira de Letras, desde julho de 2000 – cadeira que havia sido, entre outros, de Carlos Magalhães de Azeredo, um dos fundadores da ABL. Nesse associação, Alberto já foi presidente, entre 2002 e 2003. Atualmente, ele é, também, académico correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.
Por fim, vale dizer que é claro que ele não se dedicou exclusivamente às pesquisas históricas, não sendo ele um “historiador de tipo acadêmico” ou “de formação”, como alguns podem objetar. Mas, isso não o torna menos importante, afinal, se não separa a cultura, as africanidades, a poesia, não faria ele como os respeitados velhos que espalhavam e ainda espalham histórias através da oralidade nos mais diversos cantos da Áfricas?
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